sábado, 19 de fevereiro de 2011

Estado teocrático: lei ou graça?


Toda sociedade, cultura ou civilização que fundamente a gênese de seu governo em alguma divindade, vive sobre a égide do Estado teocrático. Segundo o dicionário Brasileiro, teocracia é: Forma de governo em que a autoridade, emanada dos deuses ou de Deus, é exercida por seus representantes na Terra. Não de é de hoje, mas de muitíssimo tempo que os seres humanos, para justificar suas crenças, seus governos e ideologias correspondentes, colocam uma divindade como pano de fundo para lhes atribuir as características de supremacia que existem nela. Quando vemos no antigo império romano, imperadores rogando as bênçãos ou as maldições de Júpiter ou Saturno para suas incursões militares e também para seus inimigos, o que estamos vendo nada mais é que a estrutura de valores do homem natural, do homem pré-Cristo, existente em todos os cantos deste planeta e inclusive entre os hebreus. Vale lembrar que a primeira aliança de Deus com os homens, através de Abraão se deu sob esta fórmula primitiva de existência; o povo que depois ficou conhecido como Israel nada mais era do que um governo teocrático, fato que mudou radicalmente com a vinda do messias (Jesus não ratificou esta forma de existência, o seu “reino de Deus” não era para este mundo, por este motivo a cúpula sacerdotal judaica não reconheceu Jesus como o messias prometido).

Em nossa sociedade moderna, esta maldição (Estado teocrático) é por demais contraditória com os sistemas de governo existentes: A democracia, que em si deveria ser o governo do povo é algo absurdamente contrário ao espírito de uma governo criado por alguma divindade. Ora, se o governo é do povo, se a reunião do povo (eleições) possui mais poder do que um corpo de magistrados (“instituídos por Deus”) então este tipo de governo é visivelmente um governo contrário à Deus, pois quem decide os rumos da nação são os próprios homens.

A república é um outro exemplo, onde a razão guia as ações e leis do corpo estatal e com isso ele se auto-declara laico, ou seja; não possuidor e nem defensor de nenhum credo religioso, de nenhuma divindade, não tendo nenhuma conciliação com o conceito de Deus instituindo autoridades, pois autoridades na república ou são constituídas por indicação ou por voto.

A verdade histórica e universal é que todo poder político, até os dias de hoje necessitou do poder religioso para governar, sendo a religião o braço direito de qualquer poder político terrestre. A religião é uma das mais eficientes formas de controle de massas. Apocalipticamente, a besta (poder político) necessitará do falso profeta (poder religioso) para implementar o governo mundial do anticristo! Ao longo da história, vários filósofos, pensadores e literatos denunciaram que a religião é o mais poderoso instrumento de controle já criado, de modo que ela servi no intuito de convencer as pessoas, as milhares e milhares de pessoas que estão de baixo do seu julgo, de que as autoridades seculares (reis, príncipes e presidentes) são colocados em seus cargos pela mão direta de Deus. Somente a religião teria este poder de controlar a mente do enorme rebanho, escravizando-o pela ignorância, fazendo com que não veja a verdade.

O que aconteceria se o povo descobrisse que sua realidade concreta do dia à dia, que seu cotidiano, que sua sociedade não somente foi por ele criada, mas também por ele é mantida, conservada, e que tudo o que ocorre em sua sociedade não o faz pela mão de Deus, mas pelas suas próprias mãos? Ora, a resposta para esta pergunta está sendo dada neste exato momento nos telejornais; o que está ocorrendo no Egito, protestos e mais protestos contra o governo de seu ditador é apenas uma demonstração do pode o povo quando adquire consciência sabe que seu governo não é de origem divina. Com isso pergunta-se, aonde está a religião que não consegue conter este povo no Egito? E em tantos outros lugares do mundo onde governos são depostos?

A multidão é cega, ela se distrai e se engana com qualquer explicação que lhes são oferecidas. Desde a idade média o povo acredita em superstições, em explicações da realidade que fogem da racionalidade e caem na ridicularidade. Porém esta característica é típica dos seres humanos: tudo o que ele não sabe, o que lhe é desconhecido é jogado para o além, é posto sob responsabilidade dos deuses.

Alguns problemas são bastante interessantes para serem discursados com os que defendem os Estado teocrático:

1 – Se autoridades são constituídas por Deus, como se avaliaria este caso: um país é invadido por outro, que é rapidamente conquistado. O povo do país invadido agora possuem um novo rei, novas autoridades... Os que se levantam em movimentos de insurreição para libertar sua nação das mãos da nação estrangeira que os dominaram estaria então indo contra a vontade de Deus? Por que Deus permitiria a dominação, a colonização, o genocídio e extermínio de milhões de vidas humanas e não permitiria que estas mesmas vidas lutassem por sua liberdade? Movimentos rebeldes como os dos escravos brasileiros, a revolução americana aonde foram expulsos os colonizadores ingleses e até mesmo a própria independência do Brasil, são movimentos legitimamente rebeldes, aonde um povo dominado militarmente luta e expulsa os dominadores e assim constrói seu próprio governo. Ora, até o povo de Israel se levantou contra as autoridades que lhes haviam dominado. No ano 70 d.C, muitos judeus, cansados do jugo do romano, aderiram a movimentos armados e de insurreição pública contra Roma. Uma rebelião generalizada aconteceu, quando então os romanos decidiram enviar uma expedição militar grande à região da Judéia, comandada pelo general romano Tito, e derrotaram os judeus. Em Jerusalém o tempo foi destruído e muitos habitantes debandaram para regiões distantes. O povo do antigo testamento, que obedecia autoridades cegamente, que acreditavam que as autoridades eram postas por Deus foram rebeldes?

2 – Deus permite, colabora e se agrada com a escravidão humana? Um escravo negro do século XIX ao se rebelar contra seu senhor de engenho iria para inferno? E o senhor de engenho iria para o céu?

3 – A religião protestante nasceu da revolta contra a igreja romana. Lutero se rebela contra a autoridade máxima do catolicismo, o papa, o chama de anticristo. Contudo, Lutero era católico, monge agostiniano, para poder romper teve de se voltar contra aquilo que ele estava submetido. A reforma protestante é legitimamente um movimento rebelde, de motivações tanto religiosas quanto políticas. Todos os estudiosos da área reconhecem esta verdade, porém não os religiosos protestantes, que tentam maquiar a rebelião protestante e classificá-la de outras formas. Os protestantes no Brasil se popularizaram sendo chamados de evangélicos.

4 – O anticristo será uma autoridade neste mundo. O que devem fazer os que estiverem aqui? Ir contra a “autoridade constituída por Deus”? Ou se submeter à ela esperando que assim Deus o abençoe? A igreja prostituída que ficar aqui irá colaborar com seu governo argumentando que qualquer autoridade é por Deus constituída, e que assim os cristãos devem honrar o líder mundial com um enviado de Deus para eles.

5 – Entretanto, as escrituras afirmam que aqueles que não submeterem ao governo do anticristo, que não colaborarem com ele e, consequentemente não receberam a sua marca na testa e na mão direita, estes serão salvos. Ora, com isso Jesus não está dizendo claramente que nos últimos tempos os submissos serão perdidos e os rebeldes serão salvos?

5 – Por que as igrejas continuam acreditando e ensinando que as autoridades seculares são constituídas por Deus, se o próprio Jesus declarou que o senhor deste mundo é satanás? Jesus disse que o reino dele não era deste mundo, por que antes havia dito que o príncipe deste mundo é o diabo. Entendemos portanto que, este mundo material, que aqui vivemos possui um príncipe, que domina toda a existencial material: política, economia, religião... Será que as igrejas possuem alianças ocultas que não podem ser reveladas e por isso defendem os reis e príncipes desta terra?

6 - Em países ditatoriais, com governantes que já estão no poder à décadas e governam o país com mão de ferro; não seriam esta autoridades colocadas também por Deus? Os maiores ditadores da história como Mussolini, Stalin e Adolf Hitler, também não seriam autoridades com a benção de Deus? Um crente que viveu no período de Hitler deveria apoiar o nazismo e não se levantar contra ele porque seria ele (o nazismo) supostamente abençoado por Deus? Porque a igreja diz que autoridades são instituídas por Deus sempre se referindo à países democráticos e nada fala dos que possuem ditadura?

ESCLARECIMENTOS

Quero deixar bem claro que minhas posições particulares são totalmente negativas quanto à rebelião, ao uso da violência e etc. Como seguidores de Jesus temos de imitá-lo, de modo que o padrão que temos é este: Jesus não se rebelou contra o domínio romano que havia sobre a palestina em sua época, tão pouco promoveu qualquer espécie de revolução social, passeatas e protestos contra a desigualdade social de sua região, o propósito da sua vinda aqui neste planeta foi outro! Pois ele apenas se focou em seus discursos em promover mudança na consciência do homem, em promover uma nova ética, um outro comportamento perante a vida: “Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente, eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra” (Mateus 5; 38-39), e “Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós” (João 13:34). A única motivação que me fez escrever este artigo é a de demonstrar como a crença da igreja de que o reino material dos homens é misturado com o reino divino de Deus, gerando assim o conceito de Estado teocrático é totalmente absurdo, incoerente com o evangelho de Jesus e por isso descaradamente anti-cristão. Ora, quanto à isso Jesus sempre foi bastante enfático: “O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui” (João 18:36). E também : O que é nascido da carne é carne (mundo material), e o que é nascido do Espírito é espírito (mundo espiritual)”, (João 3:6). O que Jesus defendeu é algo contrário ao que havia na antiga aliança judaica, pois na graça o conceito de teocracia tornou-se obsoleto, e com isto Jesus instituía uma divisão, uma separação de mundos; o mundo material humano, constituído pelo governo, suas instituições e sua leis de um lado, e o mundo imaterial espiritual, chamado de “reino de Deus”, do outro. Entretanto a igreja acha mais atraente viver no sistema da antiga aliança do que na graça, ela preferi viver naquilo que Jesus destruiu do que naquilo que ele construiu, ou seja; naquele sistema aonde de fato havia a existência da teocracia.

Uma coisa é crer na onisciência de Deus, de que ele está à par de tudo o que ocorre no reino dos homens e que nada foge ao seu conhecimento. Outra coisa é crer que ele interfere diretamente na realidade do sistema de organização humana, e que com isso, o homem não possui nenhuma autonomia de existência, nenhum livre arbítrio, pois assim sendo; nada do que ocorreu na realidade material humana procede do próprio homem.

Este conceito, os cristãos não o reconhecem, pois são ignorantes e manipulados por seus líderes mais ignorantes ainda. Ele é uma infecção de religiões da nova era que bebem nas fontes orientais como o hinduísmo, chamado de Panteísmo. O panteísmo é o conceito de que tudo é Deus e Deus é tudo, ou seja, tudo o que há está envolvido pela natureza de Deus, tudo o que acontece, acontece imerso na natureza divina, sendo assim não existe nenhuma margem para a liberdade humana; pois tudo o que a raça humana criou até hoje de arte, música, teatro, filosofia, idéias, tecnologia, matemática, sistemas de pensamento, não podem ser atribuídos como criações do próprio homem, mas de Deus. O que se mostra literalmente como uma enganosa fraude, pois somos seres criadores, fomos feitos à imagem e à semelhança do criador, somos criadores em menos proporções, no próprio Gêneses, Deus dá autoridade à Adão para ele nomear os animais, ou seja, para ele criar nomes para eles, para Adão aplicar através da linguagem a criatividade dada pelo criador, entretanto não teria poder para dar nomes aos animais? Porém quem nomeou os animais não foi o próprio Deus, mas Adão.

Se o mundo organizacional humano, composto por governos e suas instituições, não existe por si só, se ele necessita da ação divina para existir, logo; ele não é de origem humana e sim de origem divina. Isso é panteísmo! Tudo é Deus, e consequentemente Deus é tudo. Com isso, o panteísta esvazia a existência humana de sua materialidade, os governos, suas autoridades, suas leis, seus costumes, suas tradições, suas culturas, que nunca serão de criações do homem, mas de uma divindade que está em tudo. Esta concepção de forma bastante clara não é a de Jesus.

EGITO 2011

O fato ocorrido no começo deste ano ilustra de forma magnífica como é ridícula a posição defendida ainda hoje pela igreja de o Estado possuir caráter divino. Cerca de 2 milhões de pessoas vão às ruas em protesto ao governo, com isso ficou para a história com o nome de revolução popular, que na verdade não é nada mais que uma rebelião popular. Em pouco mais de um mês o ditador Hosni Mubarak renuncia o poder. Ora, se autoridades fossem realmente instituídas por Deus, e com isso a mão de Deus estivessem sobre elas, não haveria poder na terra capaz de tirá-las do poder, ou estou errado? Que incoerência não? Esta episódio serve pra mostrar como o povo de Deus é manipulado, enganado à todo momento e todos os dias pelos feiticeiros que criam teorias explicativas da realidade. O povo egípcio mostrou pra você e para mim que os governos são totalmente humanos, construídos por seres humanos, mantidos por seres humanos e até mesmo destruídos por seres humanos.

Dando nomes aos bois

Hoje o Estado teocrático tem como seus maiores representantes em solo Brasileiro: bispo Edir Macedo (IURD), bispo Manoel Ferreira (A. de Deus de Madureira - RJ), pastor Nilson do Amaral Fanini (PIBN - RJ), pastor Silas Malafaia (A. de Deus da Penha), Fausto Aguiar de Vasconcelos (Convenção Batista Carioca), Arolde de Oliveira (Rádio Elshadai), esses são apenas os mais visíveis e que possuem projeção midiática, e por isso influenciam mais significantemente as massas com a defesa do Estado divino; são os filinhos mais novos de Nosferato.




Madara.


2 comentários:

  1. o sonho de escravatura que os judeus queria está se cumprindo aos poucos,ainda falta o messias deles vir(anticristo).

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